
A recente tragédia em Juiz de Fora, com seus deslizamentos e inundações, expõe a crônica negligência com os efeitos do aquecimento global. A topografia montanhosa da cidade, naturalmente suscetível a esses desastres, é agravada pela elevação da temperatura dos oceanos, que intensifica as chuvas.
A combinação de riscos e o aquecimento global
Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, explica que Juiz de Fora, por estar em área de montanha, recebe umidade direta do mar. Com o aquecimento global, o Oceano Atlântico está cerca de 3°C acima do normal, gerando mais evaporação. Essa umidade, ao encontrar as montanhas, resulta em chuvas torrenciais.
“O Oceano Atlântico está muito mais quente do que o normal… isso é muito para o oceano”, avaliou Seluchi, destacando que o ar quente carrega mais umidade, intensificando os temporais.
Seluchi lamenta que este seja um “preço que pagamos pelas decisões tomadas no passado”, criticando o descumprimento de acordos internacionais para conter as mudanças climáticas. A solução, segundo ele, é a adaptação e o aumento da resiliência das cidades.
Soluções para a resiliência urbana
Matheus Martins, professor da Escola Politécnica da UFRJ e especialista em drenagem urbana, aponta soluções de engenharia para enfrentar as mudanças climáticas. Ele ressalta que Juiz de Fora, por ter crescido em áreas de vale e encostas, é particularmente vulnerável a cheias e deslizamentos.
Martins sugere intervenções como os pôlderes, técnica holandesa que isola áreas inundáveis com muros e bombas para remoção de água. “Talvez, para grandes volumes [de chuva], o alagamento seja inevitável”, disse, “Mas temos que trabalhar a cidade para que ela consiga conviver o melhor possível com isso”.
Em áreas de várzea próximas aos rios, a construção de parques públicos e a intervenção para tornar o solo mais permeável são outras alternativas. O especialista contrasta a baixa infiltração da água em áreas urbanizadas (90% de escoamento superficial) com a retenção em solos com floresta (90% de infiltração).
Investimentos e desafios em Juiz de Fora
A prefeitura de Juiz de Fora possui estudos para intervenções em bairros específicos, mas as obras ainda não foram concluídas. O governo federal aprovou R$ 30,1 milhões para contenção de encostas entre 2024 e 2025 pelo Novo PAC, com R$ 1,2 milhão já liberado. Para drenagem urbana, há um repasse de R$ 356 milhões programado para o projeto de macrodrenagem Juiz de Fora + 100.
Apesar dos planos, a lentidão na execução das obras e a necessidade de adaptação contínua diante de eventos climáticos extremos evidenciam a urgência em priorizar a resiliência urbana e a mitigação dos efeitos do aquecimento global.
Com informações da Agência Brasil







