segunda-feira, 10 de agosto de 2026
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Tambaqui ameaçado: manauaras temem que peixe fique raro e mais caro nas feiras de Manaus

Manaus – O tambaqui, um dos peixes mais tradicionais da mesa dos amazonenses, agora também preocupa quem não abre mão de um bom pedaço assado ou na brasa. A espécie foi incluída na lista nacional de animais ameaçados de extinção na categoria “Vulnerável”, levantando dúvidas sobre o futuro do peixe nas feiras, mercados e restaurantes de Manaus.

A preocupação é que a redução dos estoques naturais torne o tambaqui cada vez mais difícil de encontrar e eleve o preço do pescado comercializado na capital. Apesar do alerta, a classificação não significa que o peixe esteja prestes a desaparecer dos rios da Amazônia.

A inclusão foi oficializada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio da Portaria GM/MMA nº 1.667/2026, a partir de estudos realizados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Um dos dados que mais chamam atenção envolve justamente Manaus. Segundo a avaliação, o desembarque de tambaqui no porto da capital caiu 90% entre 1976 e 1996. No mesmo período, o esforço de pesca aumentou quatro vezes.

O ICMBio também aponta que a população da espécie está em declínio e estima uma possível redução de 30% a 40%. Modelos utilizados na avaliação projetam ainda uma queda de 43,4% da população global do tambaqui ao longo de três gerações.

Medo de faltar peixe

Para quem vive em Manaus, o receio é que a situação avance até chegar diretamente ao prato do consumidor. Uma eventual redução dos estoques naturais pode pressionar a oferta e encarecer ainda mais um peixe que já faz parte do cotidiano da população.

A situação também preocupa pescadores e comunidades que dependem da atividade para garantir renda e alimentação.

O doutor em Ecologia Aquática Edinbergh Caldas de Oliveira, no entanto, afirma que ainda não existem dados suficientes para dimensionar com precisão o tamanho dos estoques de tambaqui em toda a Amazônia.

Segundo ele, faltam levantamentos contínuos sobre as populações naturais e sobre a quantidade de peixes capturados nos rios e comercializados nos mercados da região.

“Não temos atualmente o levantamento completo de dados em nossos rios, ou seja, um acompanhamento de dados estatísticos das populações, nem do volume do desembarque dos tambaquis pescados na natureza que chega nos mercados da calha do rio Amazonas”, afirmou.

O especialista explica que estudos realizados em algumas áreas apontam percepção de redução dos estoques, mas ainda não permitem afirmar que houve uma queda acentuada em toda a Amazônia.

O que está fazendo o tambaqui desaparecer?

A pesca sem manejo adequado aparece entre as principais ameaças à espécie. A captura de exemplares abaixo do tamanho mínimo permitido, atualmente de 55 centímetros, também preocupa os pesquisadores.

Outro problema é a destruição das áreas de várzea, fundamentais para o desenvolvimento do peixe. Cerca de 61% da área de ocorrência do tambaqui está em locais sem proteção formal e sujeitos à pesca não manejada.

O tambaqui também precisa percorrer grandes distâncias para completar seu ciclo de vida. A espécie migra para áreas de reprodução e utiliza regiões alagadas para alimentação e crescimento.

Barragens, pontes, garimpo e mudanças provocadas pelo aquecimento global também podem afetar esses ambientes.

Piscicultura evita uma crise no prato?

Em Manaus, boa parte do tambaqui vendido atualmente já vem da piscicultura. A criação em cativeiro ajudou a reduzir a pressão sobre os estoques naturais e mantém o peixe disponível para consumidores.

Mas, para o especialista, isso não significa que o problema esteja resolvido.

“A produção controlada da piscicultura resolve o problema do abastecimento para a população por meio dos restaurantes, mas distrai os olhares de proteção dos ambientes naturais”, afirmou Edinbergh.

O ICMBio também alerta que escapes de peixes criados em cativeiro podem trazer riscos relacionados à transmissão de doenças e à genética das populações naturais.

Proposta de proibição preocupa setor

Entre as medidas indicadas pelo ICMBio está uma moratória de cinco anos para a pesca comercial do tambaqui na Amazônia brasileira. Também são recomendados maior controle da pesca, monitoramento dos desembarques, estudos sobre os estoques e manutenção das regras de tamanho mínimo e defeso.

A possibilidade de restrições mais severas, porém, exige cautela, segundo Edinbergh, principalmente porque milhares de pessoas dependem da pesca para sobreviver.

O especialista defende que o primeiro passo seja ampliar a fiscalização e produzir dados confiáveis sobre onde estão os estoques e em que ritmo eles estão sendo retirados da natureza.

Enquanto as medidas de conservação entram em debate, o tambaqui continua presente nas feiras e restaurantes de Manaus. O alerta agora é para que o peixe que hoje é símbolo da culinária amazonense não se transforme, no futuro, em um produto cada vez mais raro e caro na mesa da população.