
A Organização das Nações Unidas (ONU), através do Programa ONU-Habitat, selecionou 16 iniciativas brasileiras como referência para o desenvolvimento urbano em países do Sul Global. Os projetos, que abordam desde o desenvolvimento sustentável em comunidades quilombolas até soluções baseadas na natureza para tratamento de água, demonstram o potencial de práticas brasileiras para enfrentar desafios similares em outras nações.
Ilha de Maré: sustentabilidade e protagonismo comunitário
Na Bahia, a Ilha de Maré, em Salvador, foi palco do projeto “Planos de Bairro”. A iniciativa integrou líderes comunitários, poder público, universidades e organizações locais para diagnosticar e planejar o desenvolvimento de 12 comunidades, beneficiando cerca de 4 mil moradores. O projeto buscou combater desigualdades sociais e fortalecer a relação intrínseca entre a natureza e as atividades econômicas locais, como ressalta a pescadora quilombola Marizélia Lopes: “A gente não enxerga a natureza só como um espaço de exploração, a gente tem uma relação, a gente não consegue desassociar o que é natureza da gente, da vida da gente. Então a gente é a natureza, né?”
Recife aposta em soluções naturais para a qualidade da água
Outro exemplo selecionado é o projeto de Jardins Filtrantes no Parque do Caiara, no Recife. Executado pela Agência Recife para Inovação e Estratégia (Aries), o sistema utiliza 7,5 mil plantas aquáticas nativas para tratar a água do Riacho do Cavouco antes de desaguar no Rio Capibaribe. A intervenção não só melhorou a qualidade da água, mas também revitalizou o parque, tornando-o um espaço de lazer valorizado pelos moradores, como afirma Gabriela Machado: “O Jardim do Caiara, inaugurado e renovado, é um espaço que posso curtir do lado da minha casa, um lugar da minha região, que traz valor para minha região.”.
Simetria Urbana: sistematizando boas práticas
A seleção dessas iniciativas faz parte do programa Simetria Urbana, uma parceria entre o governo brasileiro, representado pela Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores (ABC/MRE), e o ONU-Habitat. O programa visa transformar boas práticas brasileiras em ferramentas concretas de cooperação para o Sul Global, focando no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11, que trata de cidades e comunidades sustentáveis.
Igualdade de gênero e qualificação profissional
O programa Marias na Construção, também de Salvador, exemplifica a integração entre igualdade de gênero, qualificação profissional e geração de renda para mulheres em situação de vulnerabilidade. Em dois anos, mais de 600 mulheres foram capacitadas em cursos oferecidos, abrindo novas perspectivas de carreira. Janaina dos Santos, aluna do programa, projeta um futuro promissor: “Quero crescer na área. Futuramente, quero fazer um curso técnico, se assim Deus me permitir, fazer uma faculdade e ser uma grande mulher na construção”.
Intercâmbio e adaptação de modelos
A arquiteta urbanista Laura Lacastagneratte de Figueiredo, analista de programas do ONU-Habitat, destaca que a publicação Simetria Urbana busca ampliar o potencial dessas experiências como referência para cooperação e como modelos adaptáveis. “O objetivo é estimular intercâmbios, projetos conjuntos e o fortalecimento de capacidades locais, contribuindo para acelerar a implementação de ações efetivas de desenvolvimento urbano sustentável em diferentes contextos”, explica.
O conjunto de soluções coletadas inclui ainda iniciativas como formação de jovens para projetos socioambientais no Ceará, centros comunitários no Recife, design de interiores para habitação social em Niterói (RJ) e desenvolvimento de ônibus híbrido em Maricá (RJ).
Com informações da assessoria




