sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
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Jovens criam selo independente para driblar dificuldades no mercado musical

Diante das barreiras e pouca receptividade do mercado musical tradicional, um grupo de jovens músicos e produtores decidiu criar seu próprio caminho. Assim nasceu o selo independente AlterEgo, no Rio de Janeiro, com o objetivo de gerenciar, produzir, promover e distribuir o trabalho de artistas com trajetórias semelhantes às deles.

A iniciativa partiu de Victor Basto, guitarrista e vocalista da banda Quedalivre, e João Mendonça, baterista do mesmo grupo. Ambos se conheceram durante a faculdade de produção musical e, após enfrentarem a dificuldade de ter o material da banda aceito por outros selos, decidiram unir conhecimentos técnicos e executivos para dar voz a novas propostas musicais.

O nascimento de um coletivo

“Com a banda, fomos descobrindo as deficiências que as outras bandas também tinham e acabou que a gente juntou o nosso conhecimento técnico com a questão de produção executiva para bandas mesmo. Juntando também com técnicos de outras áreas, surgiu o coletivo”, explica Victor Basto à Agência Brasil. A banda Quedalivre chegou a enviar seu material para diversos selos, mas, segundo Basto, “ninguém aceitou, nem responderam nenhum e-mail nosso. Ficamos decepcionados”.

A frustração se transformou em oportunidade. “Mas acabou que foi a melhor coisa que aconteceu, porque a gente teve que criar o nosso próprio selo e acabou sendo perfeito, porque tem todo mundo que a gente já conhece, com quem a gente já trabalha junto, bandas que não teriam espaço se não fosse a gente chegando com o novo selo”, complementa Basto.

AlterEgo: mais que um selo, um ecossistema

O selo AlterEgo foi fundado oficialmente em outubro de 2025, com lançamento marcado por um festival homônimo em fevereiro deste ano, no Rio de Janeiro. O evento também serviu como pré-lançamento do álbum “Seres Urbanos”, da própria banda Quedalivre.

Atualmente, o selo conta com uma equipe técnica de 22 jovens, com idades entre 21 e 25 anos, abrangendo diversas áreas como design, fotografia, audiovisual, som, além de produção executiva e fonográfica. Victor Basto atua como diretor executivo, João Mendonça como diretor de produção fonográfica e Lore Naias, guitarrista e vocalista da Quedalivre, como diretora de eventos. Mais de 25 bandas de diferentes estados já foram reunidas sob a chancela do AlterEgo.

O cenário da música independente

O AlterEgo se insere em um contexto global de crescimento dos selos independentes. Uma pesquisa internacional da MIDiA Research revelou que, em 2023, as entidades independentes (indies) detiveram 46,7% do mercado mundial de música, movimentando US$ 14,3 bilhões. No entanto, o setor enfrenta desafios significativos.

Segundo a União Brasileira de Compositores, a produção independente lida com problemas no streaming, a dificuldade em divulgar um volume exponencial de artistas e a concentração de receitas nas mãos dos grandes players do mercado. A pesquisa da MIDiA Research também aponta que, embora o streaming seja a principal fonte de receita para os selos independentes – com o Spotify respondendo por mais da metade desse valor –, há um reconhecimento generalizado das dificuldades em destacar artistas e manter o engajamento dos fãs.

O espírito “faça você mesmo”

O AlterEgo opera sob o lema “faça você mesmo”, incentivando a autogestão e a produção de eventos próprios, sem se prender a modelos convencionais. O selo se posiciona como uma plataforma de articulação para uma geração que cria, produz e grava sua própria música, transformando a expressão artística em um trabalho coletivo e uma potencial fonte de sustento.

“Está todo mundo envolvido. Não é sobre as próprias bandas. Tem toda uma estrutura, pessoas que já trabalhavam juntas, que já participavam mas que, agora, estão engajadas realmente em fazer o cenário crescer, para poder todo mundo viver do que a gente ama mesmo. Não é uma coisa individual de forma nenhuma”, afirma Basto.

Apesar dos obstáculos, o selo demonstra que é possível fazer música de qualidade com investimentos acessíveis. “Eu acho que até para bandas novas que já vieram falar conosco e que começaram por causa da gente, é muito importante que possamos mostrar que dá para fazer, sem ser nascido no berço de ouro da música. Sem aqueles investimentos vultosos dá para fazer coisa boa, sim”, conclui Victor Basto.

Com informações da Agência Brasil