terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Início MANAUS Dulce Almeida, irmã do prefeito David Almeida, entra na mira do MP...

Dulce Almeida, irmã do prefeito David Almeida, entra na mira do MP após confirmação de repasses do FUNDEB ao Manausmed

A irmã do prefeito David Almeida, Dulcinéa Ester Pereira de Almeida, conhecida como Dulce Almeida, tornou-se o centro de um avanço decisivo no Inquérito Civil nº 06.2025.00000465-7, que apura o desvio de finalidade de R$ 41,8 milhões do Fundeb em Manaus. A investigação ganhou robustez após a própria Secretaria Municipal de Educação (Semed) encaminhar ao Ministério Público do Amazonas (MPAM) extensa documentação que comprova transferências de recursos da educação para o sistema de saúde municipal.

Em setembro de 2025, a defesa da ex-secretária anexou aos autos mais de mil páginas (fls. 84 a 1091), com tabelas e comprovantes de pagamentos realizados ao FUNSERV – Manausmed. A documentação consolida a materialidade do fato: verbas “carimbadas” para a educação básica foram transferidas para o plano de saúde dos servidores.

Trecho encaminhado ao MPAM reconhece os repasses:

“Encaminhamos, em anexo, os referidos processos, contendo tabelas detalhadas e comprovantes dos pagamentos realizados ao Fundo do Plano de Saúde dos Servidores Municipais – FUNSERV Manausmed […] com os recursos de origem do Fundeb.”

Apesar da comprovação dos repasses, a estratégia da defesa tenta sustentar a legalidade do procedimento. A tese, no entanto, contraria a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que proíbe expressamente o uso de recursos da educação para assistência médica, conforme o artigo 71, inciso VI.

Enquanto o Ministério Público analisa as provas do repasse considerado ilegal sob a gestão de Dulce Almeida, a administração do prefeito David Almeida avançou na terceirização do atendimento médico. Em 2026, a Prefeitura formalizou um aditivo de R$ 119.927.162,48 com a Hapvida Assistência Médica S.A., consolidando a operação do sistema por meio da rede privada.

O cruzamento dos fatos expõe um cenário crítico. Sob a gestão da irmã do prefeito, R$ 41,8 milhões do Fundeb foram utilizados para socorrer o Manausmed. Agora, o MPAM reúne recibos e ordens de pagamento que comprovam a retirada dos recursos do caixa da educação. O sistema beneficiado, por sua vez, opera exclusivamente por meio de contratos privados que ultrapassam a casa dos cem milhões de reais.

Com a confirmação documental apresentada pela própria defesa, o promotor Alessandro Samartin de Gouveia, da 46ª Promotoria de Justiça, avalia medidas como pedido de bloqueio de bens e eventual ação por improbidade administrativa. Em caso de condenação, Dulce Almeida poderá ser obrigada a devolver integralmente os R$ 41,8 milhões aos cofres da educação de Manaus.

A legislação é clara quanto ao uso dos recursos do Fundeb. São permitidos gastos com salários de professores e profissionais da educação, manutenção do ensino, reformas, construção de escolas, material didático e transporte escolar. Por outro lado, a lei proíbe a destinação desses recursos para assistência médica e odontológica, pagamento de aposentadorias e pensões, programas de assistência social e publicidade governamental.

O caso amplia o desgaste político da gestão David Almeida ao associar o desvio de recursos da educação a decisões administrativas tomadas por um familiar direto do prefeito.