quinta-feira, 5 de março de 2026
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Bloco no Rio homenageia Maria da Penha e denuncia recorde de feminicídios em ato de carnaval

O Bloco Mulheres Rodadas desfilou na zona sul do Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (18), com uma proposta que vai além da folia: homenagear Maria da Penha Fernandes e denunciar o alarmante recorde de feminicídios no país. Fantasias criativas e performances artísticas marcaram o evento, que busca conscientizar sobre a violência doméstica e a urgência de ações efetivas.

Uma das participantes, a pernalta e acrobata Luciana Peres, de 46 anos, utilizou em sua fantasia elementos que remetiam às tentativas de assassinato sofridas por Maria da Penha em 1983. A farmacêutica, vítima emblemática da violência doméstica, emprestou seu nome à lei federal que tipifica o crime em 2006.

A luta pela vida das mulheres em pauta

“Eu não consegui pensar em outro assunto que não fosse a luta pela vida das mulheres”, declarou Peres. Ela ressaltou a importância de refletir sobre os 20 anos da Lei Maria da Penha, que se completam em 2026, em contraste com o recorde de feminicídios registrado no ano passado. Segundo o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, o Brasil contabilizou 1.518 vítimas desse crime em 2025.

“A gente precisa de políticas públicas, senão, todos os dias, mulheres vão morrer”, completou a artista e produtora cultural.

Performances que denunciam e unem

Desde 2015, o Bloco Mulheres Rodadas aborda temas como assédio, violência doméstica e feminicídio por meio de suas manifestações carnavalescas. Ao som de músicas como “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, as pernaltas simulam a violência transfóbica, que também coloca o Brasil no topo do ranking de assassinatos de transexuais. Tintas vermelhas e acrobacias são usadas para retratar agressões.

O desfile pelas ruas do Flamengo conta com outras performances que celebram a solidariedade feminina, com momentos em que uma participante ajuda a outra a se levantar, simbolizando a união e o apoio mútuo.

Música como ferramenta de empoderamento

A seleção musical é cuidadosamente elaborada para exaltar a força feminina. A regente e coordenadora de percussão, Simone Ferreira, explicou que a lista de músicas inclui intérpretes e compositoras mulheres, além de canções que celebram a condição feminina, casadas com as performances.

Entre os sucessos tocados estão clássicos como “Abre Alas” (Chiquinha Gonzaga), “Vai, Malandra” (Anitta), “Ama Sofre e Chora” (Pablo Vittar), “Tieta” (Luiz Caldas), “Vermelho” (Fafá de Belém), além de hits internacionais como “Toxic” (Britney Spears) e “Girls Just Want Have Fun” (Cyndi Lauper).

Solidariedade internacional e a luta contínua

O bloco atraiu turistas e artistas estrangeiros este ano. A pernalta francesa Lucie Cayrol, de Toulouse, aproveitou a oportunidade para homenagear a advogada franco-tunisiana Gisèle Halimi, figura chave na despenalização do aborto na França em 1975. Cayrol, no entanto, alertou que a França ainda enfrenta a violência doméstica, citando o caso de Gisèle Pelicot, que lançou um livro de memórias sobre ter sido drogada e estuprada por mais de 50 homens convidados pelo ex-marido.

A coordenadora do bloco, a jornalista Renata Rodrigues, destacou que, mesmo após uma década, o tema da violência contra a mulher no carnaval permanece relevante e urgente. “Nós somos um dos poucos coletivos, no Rio, que discute a violência contra a mulher no carnaval”, afirmou.

Rodrigues também cobrou apoio do poder público e da iniciativa privada para ampliar o alcance da mensagem. O folião Raul Santiago reforçou a necessidade do envolvimento masculino na erradicação do problema: “Os homens precisam estar junto, precisam mudar a atitude e a forma de pensar, ser antimachista, entender os lugares sociais e defender a igualdade”.

Com informações da Agência Brasil