terça-feira, 3 de março de 2026
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Projeto une vozes de crianças e jovens contra o racismo ambiental no Brasil

O conceito de racismo ambiental, que descreve as injustiças sociais e ambientais que afetam de forma desproporcional certas etnias e populações vulneráveis, é o foco de um novo projeto de conscientização ambiental. A iniciativa, liderada pela organização internacional ActionAid em parceria com outras entidades, dá voz a crianças e jovens de comunidades ribeirinhas, favelas e reservas indígenas que sofrem as consequências diretas dessas desigualdades.

Pequenos Grandes Saberes: Um Glossário Climático

A publicação “Pequenos Grandes Saberes: Um Glossário Climático pelo Olhar de Crianças e Adolescentes” compila relatos e ilustrações de jovens entre 7 e 17 anos. Essas crianças e adolescentes vivem em territórios marcados pela escassez de saneamento básico, calor extremo, alagamentos e outras formas de injustiça socioambiental. Ao todo, cerca de 350 moradores de seis estados brasileiros participaram do processo de três anos que resultou no glossário.

Jovens do Complexo da Maré (RJ), Heliópolis (SP), território indígena Xakriabá (MG), comunidades rurais de Pernambuco, territórios quilombolas na Bahia e comunidades de quebradeiras de coco babaçu no Tocantins contribuíram com suas experiências.

A Necessidade de Nomear as Injustiças

Carolina Silva, especialista em Educação e Infâncias e uma das responsáveis pela metodologia do projeto, explica que a ideia para o glossário surgiu da percepção das crianças e jovens de que algo estava errado em seus territórios. “Percebemos que as crianças já sentiam que algo estava errado nos seus territórios, mas ainda não tinham palavras para nomear essas injustiças”, afirma Carolina. O glossário, segundo ela, nasceu dessa necessidade de expressão, evidenciando a potência e a riqueza dos saberes compartilhados pelos jovens.

O glossário utiliza o personagem Akin para apresentar os conceitos. Na letra ‘A’, por exemplo, Akin aprende que agrotóxicos são vistos como algo ruim pelas crianças, que ação comunitária está ligada ao cuidado e que o acesso à água potável nem sempre é garantido. Já na letra ‘E’, o termo Energia é explicado pela perspectiva dos jovens, que notam que a energia elétrica retorna mais rapidamente para bairros mais ricos após uma queda, evidenciando a disparidade social.

Metodologia para Replicabilidade

A metodologia desenvolvida pela ActionAid e suas parceiras foi documentada na publicação, com o objetivo de ser replicada em escolas, projetos sociais e políticas públicas. O projeto contou com o apoio de organizações como Redes da Maré, UNAS Heliópolis, Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM), Giral, Conselho Pastoral de Pescadores e Pescadoras (CPP) e Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB).

Ana Paula Brandão, diretora Programática da ActionAid Brasil, ressalta a importância de empoderar crianças e adolescentes para nomearem as violências que sofrem. “É essencial levar a educação ecológica ou ambiental, a partir da perspectiva antirracista, como uma contribuição para a educação brasileira”, destaca Brandão. Ela acrescenta que ouvir a realidade dos jovens é indispensável e que o glossário se configura como um “potente instrumento educativo de mobilização e sensibilização para esse debate”.

Com informações da Agência Brasil