
Mundo – Num momento de tensão política entre os Estados Unidos e o Reino Unido devido à guerra no Irã, o rei Charles 3º fez um discurso, perante uma sessão conjunta do Congresso no Capitólio, nesta terça-feira (28/04), em que repetidamente destacou os laços históricos e culturais entre os dois países ao mesmo tempo em que sutilmente refutou posições defendidas pelo presidente Donald Trump – a quem também destinou algumas alfinetadas.
“Como o próprio presidente Trump observou durante sua visita de Estado à Grã-Bretanha no outono passado: o laço de parentesco e identidade entre os Estados Unidos e o Reino Unido é inestimável e eterno. É insubstituível e inquebrável”, declarou Charles 3º, no primeiro discurso de um monarca britânico no Capitólio desde o da rainha Elizabeth 2ª em 1991.
Ao falar em alusão ao 250º aniversário da independência dos EUA do Reino da Grã-Bretanha, Charles expressou gratidão pela união das duas nações na construção de “uma das alianças mais importantes da história da humanidade”, ao mesmo tempo em que insistiu para que sejam ignorados os apelos para que os países se voltem cada vez mais para si mesmos.
Embora Trump não estivesse presente, como manda o protocolo, grande parte do discurso pareceu ser direcionada diretamente ao presidente.
Ucrânia e Otan
O rei incentivou os líderes dos EUA a permanecerem engajados nos temas globais. “Estes são tempos que, em muitos aspectos, são mais voláteis e perigosos do que o mundo sobre o qual minha falecida mãe falou nesta mesma câmara em 1991”, disse.
Ele aproveitou a oportunidade para apelar a uma defesa resoluta da Ucrânia e destacou a importância da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ao lembrar que, após os ataques de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos invocaram, pela primeira vez na história, o artigo 5º – e receberam o apoio dos aliados.
“Respondemos ao chamado juntos – como nossos povos têm feito por mais de um século, ombro a ombro, através de duas Guerras Mundiais, a Guerra Fria, o Afeganistão e momentos que definiram nossa segurança compartilhada”, disse Charles.
Hoje, “essa mesma resolução inabalável é necessária para defender a Ucrânia e seu povo corajoso”, disse ele, dirigindo-se ao presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson.
Ao afirmar que o Reino Unido se comprometeu com “o maior aumento sustentado de gastos de defesa desde a Guerra Fria”, Charles mencionou, de passagem, que serviu “com imenso orgulho na Marinha Real” – uma sutil alfinetada em Trump, que recentemente chamou dois porta-aviões britânicos de “brinquedos”.
Defesa do meio ambiente
Além do “America first” e da Otan, o rei ainda falou de outros temas espinhosos. Ele elogiou o pluralismo religioso e o diálogo inter-religioso em termos raros hoje em dia em Washington.
Enquanto Trump revoga regulamentações destinadas a conter as mudanças climáticas, Charles, um fervoroso ambientalista, encorajou aqueles no poder a “refletir sobre nossa responsabilidade compartilhada de proteger a natureza, nosso bem mais precioso e insubstituível”.
A geração no poder precisa decidir como lidar com o colapso de ecossistemas críticos, que ameaça muito mais do que a harmonia e a diversidade da natureza, disse ele. “Estamos ignorando, por nossa própria conta e risco”, que esses sistemas naturais formam a base da prosperidade e da segurança, afirmou.
Freios e contrapesos
Em certo momento, Charles traçou a noção de freios e contrapesos ao poder Executivo até a Magna Carta, o documento selado pelo rei João da Inglaterra em 1215 e que limitou os poderes do monarca.
Charles afirmou que a Sociedade Histórica da Suprema Corte dos EUA descobriu que a Magna Carta foi citada em pelo menos 160 casos da Suprema Corte desde 1789, “principalmente como fundamento do princípio de que o poder executivo está sujeito a freios e contrapesos”.
Trump, que costuma passar ao largo do Congresso e da Suprema Corte, disse ao The New York Times, no início deste ano, que estava limitado apenas por “minha própria moralidade”.
Charles fez ainda referência ao ataque ocorrido durante o jantar de Trump com jornalistas e afirmou que atos de violência contra a democracia “jamais terão sucesso”.
“Estamos reunidos também depois do incidente ocorrido não muito longe deste grande edifício, que tentou minar a liderança de sua nação e semear ainda mais medo e discórdia. Permitam-me dizer com firmeza inabalável: tais atos de violência jamais terão sucesso”, declarou.
“Quaisquer que sejam as nossas diferenças, quaisquer que sejam as nossas divergências, permanecemos unidos no nosso compromisso de defender a democracia”, acrescentou.
Risos e ovações
Um tema esperado, mas que Charles abordou apenas indiretamente, foi o escândalo em torno de Jeffrey Epstein, que causou dores de cabeça políticas para Trump e levou a uma ruptura na família real britânica. “Em ambos os nossos países, é justamente o fato de termos sociedades vibrantes, diversas e livres que nos dá força coletiva, inclusive para apoiar as vítimas de alguns dos males que, tão tragicamente, existem em nossas sociedades hoje”, disse o rei.
Assim como a rainha Elizabeth 2ª, Charles várias vezes provocou risos entre os congressistas. A rainha, que não era particularmente alta, iniciou o seu discurso de 1991 perguntando se todos a conseguiam ver bem. Charles citou o escritor Oscar Wilde e disse que Reino Unido e Estados Unidos têm tudo em comum, “exceto, claro, a língua”.
O Times, de Londres, observou que, “numa jogada diplomática magistral, que visava tanto apaziguar quanto advertir, o rei recebeu doze ovações de pé de todo o espectro político durante seu discurso histórico em Washington”.
Já o Sydney Morning Herald, da Austrália, afirmou que “o rei Charles usou a tribuna do Congresso dos EUA para transmitir uma mensagem sutil, porém poderosa, a Donald Trump e ao povo americano sobre o valor da lealdade aos amigos”.
O presidente deu a entender que não se importou com as críticas. Ele disse que o rei fez um ótimo discurso. “Eu fiquei com muita inveja. Ele conseguiu fazer os democratas se levantarem. Eu nunca consegui isso”, disse.







